precisamos falar sobre a raiva

A raiva incomoda. E essa é a função dela. Quando o fluxo das coisas é travado, alguma coisa esculhamba a harmonia, a integridade/unidade é ameaçada, a raiva vem como essa força capaz de produzir mudança na estagnação. E todo mundo, quer esteja consciente disso ou não, sente raiva. O que cada um faz com a raiva que sente é peculiar de cada um. A norma a respeito do que fazer com a raiva na nossa sociedade é a repressão.

Por isso precisamos falar sobre a raiva. Essa emoção potente, que tem a capacidade de transmutar estagnações, ao ser reprimida, vira ela própria uma estagnação. E isso certamente terá consequências. Nessa sábia existência a vida tá sempre buscando o fluxo, pois vida é movimento, então, quando a raiva é reprimida e vira uma energia estagnada, isso vai gerar processos onde a energia vai fermentar até erupcionar e essa raiva, agora pútrida e purulenta, vai vir pra fora como uma lava destruidora na sua forma, porém potencialmente restauradora do equilíbrio em seu propósito mais profundo (por mais que dolorosa).

A gente tem medo da raiva porque é muito difícil que conheçamos a energia pura da raiva, que pode ser usada para criar, para transformar. Quando pensamos em raiva, a conexão mais comum é com situações que já estão estagnadas, onde o ressentimento, a culpabilização e a vitimização já se estabeleceram como artifícios legítimos e pertinentes. Mas isso nos tira a responsabilidade de agir –  e a possibilidade de sentir.

Já reparou como alguns gatilhos que acionam nossa raiva estão bem distantes da nossa vida pessoal? Situações políticas, sociais, figuras públicas que ajam fora de acordo com nossos princípios individuais, causas às quais muitas outras pessoas se somam, de forma que a nossa raiva seja legitimada pelo coletivo. E passamos de rebeldes contra um sistema a ovelhas em um outro, onde a busca de legitimação continua sendo o motor principal de nossas ações.

E o exato medo dos efeitos da raiva produziu agora um novo fenômeno que é o cancelamento e o linchamento virtuais. Situações em que as pessoas pegam uma carona em reações raivosas publicadas em redes sociais em ataque a uma pessoa ou entidade e assim, além de vivenciarem o alívio da descarga de sua raiva contida, ainda usufruem da sensação de pertencimento e legitimação. O mesmo processo pode ocorrer em grupos de militância, grupos religiosos e outros.

Veja bem, não estou defendendo a não-manifestação em relação a situações que incomodam, de forma alguma! Só estou sugerindo que sua manifestação venha de você, que você perceba o que sente com a situação, reconheça o sentimento que isso lhe causa e acesse sua inteligência interna para encontrar a melhor forma de lidar com a questão. Responsabilidade individual. Coisa de adulto.

Na atual polarização que a situação política nacional e internacional trouxeram à tona, é muito impressionante ver o mesmo mecanismo de desresponsabilização pessoal nos dois lados do front. Qual a raiva mais legítima? A de branco rico ou a de preto pobre? É legítima uma raiva que queira exterminar os povos indígenas do país? E a saída para ela seria exterminar os que assim pensam?

Não tem saída pra raiva. Porque ela não é um lugar fechado, de onde precisamos escapar. Ela é uma emoção legítima, que precisa ser reconhecida, aceita e permitida a mover na direção da mudança que se fizer necessária na dada situação. Ela só se tornou pervertida pelos anos de condicionamento e repressão a que a submetemos. As absurdas injustiças que vemos em escala macro na cidade, no país e no mundo são frutos desta repressão globalmente. E, mais do que isto, são reflexos externos de situações pessoais que deixaram marcas em nossas vidas íntimas, cujo ressentimento guardado misturado ao medo de agir pessoalmente, encontram conforto e alívio em agredir o social, o coletivo, especialmente se for de forma virtual, que daí ninguém pode nos atingir fisicamente. Quantos de vocês não acham mais fácil expressar sua indignação contra o presidente da república do que contra seu pai? Não estou questionando a validade da indignação contra o presidente, mas a autenticidade dessa indignação, ao ser desviada de uma figura de autoridade que tem o potencial de me machucar diretamente (e possivelmente o fez muitas vezes) para uma figura que provavelmente nunca virá a me conhecer pessoalmente.

Outro fenômeno que tem me impressionado é o ataque a quem está fazendo algo publicamente. Não existe aquele momento em que a gente vai estar 100% pronto para fazer algo e aí não vai dar furo nenhum… se a gente esperar por isso, não se mexe. Mas enquanto a gente não se atreve a agir, ver alguém se atrevendo em algum lugar nos lembra de que também gostaríamos de estar agindo e vem uma invejinha que rápido se transforma em milhares de julgamentos raivosos de como aquela pessoa tá cometendo erros no que tá fazendo. Aí a gente cai de pau em cima e sente alívio, pois assim, finalmente, “tá fazendo algo”!

Não tô escrevendo pra dar a saída, que já mencionei que não é necessária, mas pra te convidar a olhar pra dentro, sentir o que você tá lendo e onde isso reverbera no teu corpo, no teu coração. Talvez um reconhecimento de ressentimentos, de medos de se expor, de injustiças “engolidas” por medo ou por identificação com o papel de vítima estejam influenciando nossas vidas mais do que possamos perceber. E esse mecanismo é o mesmo pra você e para aquele que você considera um super tirano raivoso – ele também tá expressando uma raiva perversa, reprimida na fonte, por falta de reconhecer seu sentimento genuíno e a direção saudável que ele poderia tomar.

A gente só pode deixar os outros direcionarem a gente nos primeiros anos de nossas vidas. Como adultos, essa desresponsabilização tem consequências não só individuais, mas coletivas, sociais, globais, pois somos nós que estamos criando este planeta, com todas suas maravilhas e distorções.  A atitude dualista de que “eles são os maus e estão estragando tudo e nós somos os bons, que estão reclamando e botando a boca neles” já não serve a nenhum propósito que se aproxime de mudança. E a raiva é a emoção que pode mover a mudança, então bora reconhecê-la, tirar de cima dela as camadas de medo e repressão pra dar a ela a direção da transformação.     

Gostaria muito de saber o que te vem com esta reflexão, deixa teu ponto de vista aqui!

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